Empreendedorismo feminino enfrenta barreiras para crescer

O empreendedorismo feminino ainda avança em um ambiente de negócios marcado por estruturas predominantemente masculinas. Essa foi uma das principais conclusões do encontro da JG TV Casa Aberta, realizado em 15 de agosto, que reuniu Vanessa Costa, fundadora da NutrAlive, primeira Menotech do Brasil, também apresentadora do programa Menospausa, com Priscila Fantin, Fernanda Sotelo Martins, líder de Produto, Experiência e Marca da Kiddle Pass e Mariana Espíndola, Estratégia de Negócios e Expansão da Kiddle Pass.

Durante a conversa, as empreendedoras relataram as dificuldades enfrentadas para captar investimentos, ocupar posições de liderança e construir empresas sem reproduzir modelos tradicionais de gestão.

O cenário ajuda a dimensionar o tamanho desse desafio. Segundo o Mapeamento do Ecossistema Brasileiro de Startups 2025, da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), as mulheres representam 19,9% das pessoas fundadoras de startups no país, enquanto os homens cisgêneros correspondem a 78,4%. O percentual feminino avançou pouco em relação aos 19,2% registrados na edição anterior.

Para Mariana Espíndola, que participou de rodadas de investimento da Kiddle Pass, a desigualdade também aparece na maneira como mulheres e homens são avaliados quando apresentam seus negócios. “Eu acho que o mercado não tá preparado para ouvir mulher falando sobre ambição, falando sobre dinheiro, falando sobre business plan de empresa, trazendo um olhar ambicioso de construção de uma operação”, afirmou Mariana.

Segundo ela, as perguntas feitas durante negociações com investidores muitas vezes partiam de perspectivas diferentes. “Para eles muito pensada em números, em BP da empresa, futuro, para mim era muito olhando para a capacidade de fazer o negócio acontecer”, relatou.

A diferença não se limita à quantidade de mulheres que chegam ao empreendedorismo de inovação. O acesso ao capital também continua sendo um obstáculo. Um levantamento citado durante o programa apontou que a participação feminina entre fundadores de startups permanece baixa e que o capital de risco ainda chega de forma desigual às empresas lideradas por mulheres. Dados divulgados pela Forbes em 2024, por exemplo, apontavam que mulheres acessavam apenas 3% dos investimentos de venture capital no Brasil.

Empreender não significa ter liberdade

A conversa também desconstruiu uma das ideias mais comuns sobre empreendedorismo: a de que abrir uma empresa representa automaticamente conquistar liberdade.

Para Fernanda Sotelo Martins, que construiu uma carreira no mundo corporativo antes de empreender, a decisão nasceu de uma inquietação pessoal. Formada em publicidade e propaganda, ela trabalhou em grandes multinacionais e chegou cedo a posições de liderança. Apesar do reconhecimento profissional, percebeu que a trajetória que parecia representar sucesso não correspondia ao que buscava para a própria vida.

“Para mim, o empreender era o privilégio de poder colocar a minha energia e dedicar o meu tempo a algo que tivesse completamente conectada a quem eu sou, aos meus motivadores pessoais, aquilo que fazia eu brilhar meu olho”, contou.

A mudança aconteceu depois de um período de insatisfação profissional. Fernanda relatou que, enquanto esperava ansiosamente pela chegada dos fins de semana no trabalho corporativo, encontrava realização em atividades voluntárias ligadas à educação e à infância.

Foi nesse contexto que surgiu a decisão de empreender. Mas, para ela, coragem não significa ausência de riscos. “Empreender é navegar num mar de incertezas, pode dar muito certo, pode dar errado, a gente pode ter que recomeçar”, afirmou.

Mariana, que também vinha de uma trajetória corporativa, encontrou uma motivação semelhante. A experiência em cargos de liderança permitiu que ela conhecesse de perto os processos de decisão das grandes empresas, mas também revelou contradições entre os discursos institucionais e a prática. “Começou a me incomodar e me frustrar muito eu ver que o que estava escrito na parede era muito diferente do que acontecia na prática”, disse Mariana.

A aproximação entre as duas aconteceu a partir do trabalho voluntário com educação e infância. O propósito acabou se transformando em negócio e deu origem à Kiddle Pass, plataforma voltada para famílias e crianças.

Ferramenta para educação e segurança infantil

A Kiddle Pass nasceu da percepção das empreendedoras sobre uma transformação na infância: crianças que crescem conectadas desde os primeiros anos de vida, enquanto pais e mães enfrentam rotinas cada vez mais complexas e, muitas vezes, sem uma rede de apoio estruturada.

A proposta da empresa é oferecer um ambiente digital voltado para crianças de 3 a 12 anos, com conteúdos educativos e de entretenimento. A plataforma reúne atividades ao vivo, conteúdos gravados, jogos e livros interativos, com curadoria pedagógica.

Fernanda explicou que a proposta não é simplesmente discutir quanto tempo as crianças passam diante das telas, mas também o que elas encontram nesse ambiente. “Mais do que isso, que tipo de conteúdo a gente tá oferecendo pras crianças, né? Momento de tela tem que ter essa mediação”, afirmou.

A empresa também busca trabalhar competências que, segundo as empreendedoras, nem sempre são contempladas pela educação tradicional, combinando entretenimento e aprendizagem. A plataforma foi desenvolvida ainda com uma preocupação de inclusão de crianças típicas e atípicas.

A trajetória das fundadoras revela uma característica comum a muitos negócios inovadores: o empreendimento não nasceu apenas da identificação de uma oportunidade de mercado, mas da tentativa de resolver um problema que as próprias empreendedoras consideravam relevante.

Menopausa e empreendedorismo

A história de Vanessa Costa segue uma lógica semelhante, mas em outro segmento. Bailarina e ex-atleta de alto rendimento, formada em sociologia e posteriormente em nutrição, ela transformou uma experiência pessoal em um projeto voltado à saúde e à educação de mulheres.

Vanessa contou que entrou na menopausa precoce aos 38 anos, em um momento em que estava no auge da vida profissional. A experiência veio acompanhada de mudanças pessoais importantes e provocou uma revisão de sua trajetória.

O que mais a incomodou, porém, foi perceber que, apesar de ter acesso à informação, formação e recursos, ela própria não havia sido preparada para aquela possibilidade.

“Mesmo eu tendo tanto conhecimento, tanta educação, tanto estudo, tanto acesso, tantas possibilidades, ninguém me avisou que poderia acontecer comigo”, relatou Vanessa.

A experiência fez com que Vanessa passasse a enxergar a falta de informação como um problema que poderia atingir ainda mais mulheres sem acesso aos mesmos recursos.

“Se eu que tenho acesso a tudo isso que eu sei, eu não consegui evitar, imagina as mulheres que não têm acesso a essa informação, elas estão sofrendo muito mais que eu. Eu preciso fazer alguma coisa”, afirmou a executiva.

A partir dessa motivação, surgiu a NutrAlive, empresa voltada à suplementação, e posteriormente a Menotec, apresentada no programa como uma startup dedicada à educação sobre menopausa e longevidade feminina, incluindo formação para profissionais de saúde, cursos e palestras.

A empreendedora resume sua motivação a uma ideia que atravessa todo o projeto: conhecimento precisa ser compartilhado. “Se eu souber de uma coisa, eu não vou guardar, eu vou contar para todo mundo”, disse ela.

A discussão sobre conhecimento e saúde feminina também encontra respaldo na história da própria ciência. Nos Estados Unidos, o NIH Revitalization Act, de 1993, estabeleceu em lei a necessidade de inclusão de mulheres em pesquisas clínicas financiadas pelo National Institutes of Health. A legislação determinou que os estudos fossem desenhados de modo a permitir a análise de possíveis diferenças nos efeitos das variáveis pesquisadas entre mulheres e outros participantes.

O próprio NIH destaca que a inclusão de mulheres em pesquisas clínicas passou a ser uma exigência legal em 1993, depois de anos em que a participação feminina era insuficiente ou tratada de maneira inadequada em diferentes áreas de investigação.

Os desafios mudam conforme a empresa cresce

Outro ponto de convergência entre as três empreendedoras foi a necessidade de abandonar a visão romantizada de que ter um negócio próprio significa trabalhar menos ou possuir mais liberdade.

Mariana resumiu a questão de outra maneira: “Eu trocaria a palavra liberdade por autonomia”. Para ela, a autonomia para tomar decisões vem acompanhada de uma responsabilidade crescente. No início, a preocupação está relacionada ao desenvolvimento do produto e à identificação de um mercado disposto a comprá-lo. Depois, surgem questões como contratação, fluxo de caixa, crescimento, gestão de pessoas e sustentabilidade da operação.

Fernanda concordou que o empreendedor passa por diferentes fases de problemas. “A única certeza que a gente tem é que vem mais desafio pela frente. Os desafios vão ficando cada vez maiores”, disse.

A experiência também exige que o fundador deixe de concentrar todas as funções. No início, segundo as empreendedoras, é comum acumular atividades de marketing, vendas, finanças, recursos humanos e operação. Com o crescimento, porém, surge a necessidade de construir uma estrutura capaz de funcionar sem depender integralmente de uma única pessoa.

Para Mariana, esse processo ganha uma dimensão ainda mais pessoal diante da maternidade. Ela contou que a Kiddle Pass se tornou seu “primeiro filho” e que precisou aprender a se afastar parcialmente da operação para acompanhar a chegada da filha. “Pela primeira vez vou ter que estar longe dela para criar a minha primeira filha”, afirmou a executiva.

A situação evidencia um dos desafios mais discutidos quando o assunto é empreendedorismo feminino: como conciliar crescimento profissional, maternidade e responsabilidades familiares sem que uma dessas dimensões precise ser sacrificada.

Liderança feminina ainda é construída em estruturas masculinas

A discussão sobre liderança revelou outro aspecto importante: as mulheres não estão apenas tentando ocupar espaços de poder, mas também questionando os modelos tradicionais utilizados para definir o que significa ser uma boa liderança.

Fernanda considera que o mercado está vivendo um período de transição. Para ela, os modelos tradicionais foram construídos em uma sociedade predominantemente masculina e precisam ser revistos diante das mudanças nas relações de trabalho. “Eu acho que a sociedade já tá aberta pro debate, que já é um passo importantíssimo”, afirmou.

Na avaliação da empreendedora, uma liderança contemporânea pode combinar foco em resultados com cuidado e empatia. “Independentemente de uma liderança masculina ou feminina, é possível a gente ter um drive para resultados, a gente ser objetivo, a gente ser firme, mas a gente construir um ambiente que cuida de pessoas, um ambiente mais empático”, explicou ela.

Vanessa acrescentou que a própria ciência oferece um exemplo de como as mulheres foram historicamente deixadas à margem de processos de decisão e produção de conhecimento. Para ela, a geração atual tem a oportunidade de modificar esse cenário. “Que bom que vivemos essa geração. Nós somos a geração que está podendo reescrever a história”, afirmou.

Mariana também defendeu uma mudança na maneira de compreender liderança. Segundo ela, as mulheres podem trazer para as organizações um olhar mais amplo sobre a vida dos profissionais, considerando que a carreira não necessariamente ocupa o centro de todas as dimensões da existência.

“Nós mulheres, a gente sempre, enfim, acho que todo mundo passa ou passou por isso aqui. A gente não consegue ter o trabalho como um pilar tão central e se desligar de todo o resto”, afirmou.

Para as empreendedoras, portanto, a questão não deveria ser substituir um modelo masculino por um feminino, mas construir formas de liderança capazes de reunir diferentes competências.

Coragem, planejamento e capacidade de ouvir

Ao final do encontro, as convidadas foram questionadas sobre o principal conselho que dariam a quem deseja começar a empreender. Mariana resumiu sua resposta em duas palavras: “coragem e cara de pau”.

A recomendação, porém, não significa agir sem planejamento. Para ela, é importante buscar conhecimento, conversar com quem já percorreu o caminho e não esperar que todas as condições estejam perfeitas para começar.

A empreendedora contou que costuma procurar profissionais e empresários pelo LinkedIn para pedir conversas e entender experiências de quem está alguns passos à frente.

Fernanda acrescentou outro ponto: preparação. “A primeira coisa é se preparar, porque a gente não é preparado pro empreendedorismo”, afirmou.

Ela recomenda conhecer o mercado, testar a ideia e conversar com potenciais clientes antes de apostar todas as fichas em um produto ou serviço. “Faça contas, teste sua tese, conheça seu mercado, se conecte com pessoas”, orientou.

Vanessa, por sua vez, destacou disciplina e capacidade de escuta. Vinda do esporte de alto rendimento, ela considera que o empreendedor precisa criar uma rotina capaz de sustentar o negócio ao longo do tempo. “Você vai precisar ser muito disciplinado, porque empreender demanda uma energia todo dia”, afirmou.

Ela também defendeu que o empreendedor escute diferentes pessoas, inclusive aquelas que já fracassaram. “Aprenda a ouvir e ouça não só quem deu certo, mas quem deu errado também”, aconselhou.

Construção e transformação das estruturas

A mediadora Jussara Goyano encerrou a conversa acrescentando uma última reflexão: ninguém precisa construir um negócio completamente sozinho. Para ela, parcerias, terceirização e apoio especializado podem acelerar o desenvolvimento de uma empresa e evitar que o empreendedor fique preso ao operacional.

O encontro da JG TV Casa Aberta mostrou, assim, que o empreendedorismo feminino vai muito além da abertura de empresas. As histórias de Vanessa, Fernanda e Mariana revelam mulheres que transformaram experiências pessoais e profissionais em negócios, mas também evidenciam os obstáculos que ainda precisam ser enfrentados para que mais mulheres tenham acesso a capital, tecnologia, liderança e oportunidades de crescimento.

Em comum, as três histórias carregam uma mesma ideia: empreender pode ser uma escolha de propósito, mas exige preparo para lidar com incertezas, capacidade de adaptação e disposição para construir redes de apoio. Em um ecossistema de startups no qual apenas 19,9% das pessoas fundadoras são mulheres, ampliar esses espaços significa também transformar as estruturas que definem quem pode criar, liderar e receber investimento no mercado de inovação brasileiro.

Assista o programa:

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