CONARH 2026: o desafio de cuidar das pessoas foi atualizado

Tecnologia, saúde mental, liderança, benefícios e proteção financeira mostram como o cuidado com o trabalhador ganha espaço estratégico na gestão de pessoas

Um dos principais eventos de recursos humanos da América Latina, o CONARH 2026, realizado de 18 de agosto até hoje, 20, no São Paulo Expo, na capital paulista, reuniu profissionais, empresas e especialistas para discutir os principais desafios e transformações que atravessam o mundo do trabalho. Neste ano, a programação reforçou uma tendência que já vinha se estabelecendo no setor: colocar as pessoas no centro das decisões, integrando cuidado, tecnologia, produtividade e resultados, humanizando marcas e gestão.

A agenda do congresso e das palestras e workshops paralelos, bem como os lançamentos apresentados pelas empresas participantes da feira organizada pelo CONARH 2026, mostram que o desafio de cuidar dos trabalhadores ganhou novas dimensões. Saúde mental, desenvolvimento de lideranças, benefícios personalizados, saúde digital e proteção financeira aparecem cada vez mais conectados a uma mesma questão: como as organizações podem responder às necessidades reais de quem trabalha?

A resposta a essa pergunta aponta para uma mudança na própria concepção da gestão de pessoas: o cuidado parece estar sendo tratado, finalmente, como parte da estratégia do negócio.

Proteção financeira também é atenção ao trabalhador

Um dos exemplos dessa transformação apareceu na participação da BIZ, que apresentou, no CONARH 2026, soluções voltadas não apenas à oferta de benefícios, mas à proteção do trabalhador diante de situações concretas de vulnerabilidade financeira.

A empresa, que patrocinou a plenária de encerramento do congresso e levou ao Brasil o especialista Richard Barrett, criador do Barrett Values Centre, em parceria com a Alper Seguros, aposta em um modelo que amplia o papel dos benefícios corporativos na relação entre empresas e colaboradores, o que ocorre por meio de sua plataforma white label, personalizada de acordo com a identidade da empresa, gerando mais engajamento com a própria companhia e sua gestão.

Entre os produtos apresentados estão recursos como antecipação salarial e soluções de crédito estruturadas para situações emergenciais. A proposta é reduzir a pressão financeira sobre o trabalhador e, consequentemente, seus impactos sobre a vida profissional e pessoal.

É nesse contexto que uma espécie de “blindagem anti-bets” apresentada pela empresa ganha relevância. Os serviços têm travas para impedir que recursos financeiros destinados ao trabalhador sejam utilizados em plataformas de apostas online, o que desloca o debate sobre benefícios para uma dimensão mais ampla de cuidado: proteger não apenas a renda, mas o patrimônio e a segurança financeira das famílias.

Em entrevista durante o evento, o CEO da vertical de benefícios da BIZ, Clayton Pedro, destacou, ainda, a expansão dos Serviços de Valor Agregado (SVAS) da operadora, estruturados por meio de parcerias com redes de saúde e drogarias.

Clayton afirma que a empresa captou uma mudança importante na agenda do RH: se o trabalhador chega à empresa carregando preocupações financeiras, emocionais e familiares, não é mais possível pensar o benefício corporativo apenas como uma vantagem adicional. O produto passa a integrar uma estratégia de cuidado e retenção de talentos.

Liderança entre o sonho e o principal desafio do RH

Ainda na esteira do cuidado e da retenção de talentos, a pesquisa “Sonhos do RH”, conduzida pela Conexa em parceria com a Zenklub, mostra que a liderança ideal ocupa, simultaneamente, o topo das ambições e das preocupações dos profissionais de Recursos Humanos.

Segundo o levantamento, 46% dos respondentes consideram o desenvolvimento de líderes um dos papéis centrais da gestão de pessoas para os próximos cinco anos.

O paradoxo aparece quando se observa o que os profissionais esperam dessas lideranças. Para 38%, o cenário ideal envolve a construção de líderes mais humanos, capazes de atuar como agentes de cuidado e desenvolvimento das equipes. Exatamente a mesma proporção, 38%, aponta o despreparo das chefias como uma das principais fontes de preocupação no cotidiano.

O levantamento mostra ainda que 16% dos profissionais identificam a falta de apoio do board como um dos entraves para avançar na agenda de liderança. Outros 24% afirmam que priorizariam o desenvolvimento de posições de comando caso tivessem mais recursos.

Para Maria Barreto, vice-presidente da Conexa, o desenvolvimento de líderes está entre as prioridades urgentes do RH justamente porque a liderança precisa assumir um papel que ultrapassa a gestão de tarefas e resultados.

Quando preparada para atuar como agente de cuidado e crescimento, a liderança contribui para que o RH deixe de agir apenas de forma reativa, mediando conflitos e “apagando incêndios”, e passe a trabalhar de maneira mais estratégica, conectando saúde integral, engajamento e resultados do negócio.

Saúde mental deixa de ser pauta periférica

A discussão sobre liderança conduz diretamente a outro dos grandes temas presentes no CONARH 2026: a saúde mental no ambiente corporativo.

A pesquisa da Conexa e da Zenklub identifica uma distância entre o reconhecimento da importância do bem-estar e a prioridade efetivamente dada ao tema pelas organizações. Para Maria, as empresas já compreendem o impacto da saúde e do bem-estar sobre os resultados, mas ainda existe espaço para transformar esse reconhecimento em decisões concretas.

A proposta é aproximar saúde e estratégia de negócio por meio de dados, prevenção e acesso ao cuidado, colocando o desenvolvimento das lideranças entre os primeiros passos dessa transformação.

Essa perspectiva também esteve presente na participação da SulAmérica no congresso. A companhia levou ao evento discussões sobre saúde mental, saúde digital e inovação, tendo a telemedicina como um dos principais eixos de sua participação, impulsionada pela Docway, braço de serviços de saúde digital da SulAmérica.

Na Arena SulAmérica, espaço com capacidade para 180 pessoas, uma programação de palestras e painéis abordou temas relacionados a bem-estar, gestão de pessoas e futuro do trabalho.

A tecnologia apareceu associada à humanização. Em painéis conduzidos por Giovanna Bordon, Superintendente da Docway, a inteligência artificial foi discutida como ferramenta de apoio a processos de contratação e triagem de saúde, sem que a tecnologia substitua o acolhimento humano.

A programação também colocou a saúde mental em evidência, com a participação da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, que discutiu os desafios do cuidado emocional nas empresas e a necessidade de lideranças preparadas para lidar com situações de esgotamento profissional.

Benefícios mais próximos das necessidades reais

A evolução dos benefícios corporativos de saúde com olhar na necessidade real do trabalhador transformou propostas de saúde isoladas em suas especialidades para programas de atenção ao bem-estar integral. Nesse cenário, esses produtos deixam de ser vistos apenas como instrumentos de atração e retenção de talentos e passam a fazer parte de uma experiência mais ampla de cuidado.

No caso da TotalPass, uma das empresas participantes da feira no CONARH 2026, a companhia ampliando cada vez mais o seu conceito de bem-estar para além da prática de atividades físicas, foco que era o seu core business no setor de benefícios corporativos. Segundo Rita Ruas, head de Sucesso do Cliente da empresa, o movimento acompanha a mudança percebida pelos RHs nas expectativas dos usuários da plataforma, que buscam soluções capazes de responder a diferentes dimensões da vida.

A lógica é semelhante à apresentada pela BIZ, embora por caminhos diferentes: compreender que as necessidades do trabalhador não terminam no ambiente de trabalho. Saúde física, saúde mental, situação financeira, acesso a serviços e qualidade de vida estão interligados.

Para o RH, isso significa lidar com uma equação mais complexa. Não basta oferecer um pacote de benefícios. É preciso entender se aquilo que está sendo oferecido efetivamente responde às necessidades das pessoas.

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Da esquerda para a direita: Clayton Pedro, CEO da vertical de benefícios da BIZ; Giovanna Bordon, Superintendente da Docway; Rita Ruas, head de Sucesso do Cliente da TotalPass, e Maria Barreto, vice-presidente da Conexa: olhar para demandas reais de colaboradores e RHs (Crédito: reprodução/registros JG TV +IA)

A companhia também apresentou no evento resultados e iniciativas relacionados ao Prêmio RH de Bem-Estar by TotalPass, criado para reconhecer organizações que desenvolvem práticas capazes de produzir impacto concreto na experiência dos colaboradores. A avaliação considera aspectos como inovação, impacto no bem-estar e aderência aos valores da empresa, com análise técnica e participação de especialistas.

Tecnologia para aproximar empresas e trabalhadores

A tecnologia atravessou boa parte das discussões do CONARH 2026, mas com uma mudança de perspectiva. O desafio não é mais simplesmente digitalizar processos de Recursos Humanos. É utilizar a tecnologia para tornar o cuidado mais acessível, personalizado e conectado à realidade dos trabalhadores.

A participação da Nexti no CONARH 2026 também se insere nesse movimento, ao apresentar soluções voltadas à gestão de pessoas e à digitalização de processos relacionados à jornada dos trabalhadores.

A transformação digital do RH, nesse contexto, deixa de ser apenas uma questão operacional, como lembra Marcelo Gomes, CEO da Nexti. Dados, automação e plataformas digitais podem liberar o RH de tarefas burocráticas e permitir que a área concentre mais energia naquilo que dificilmente pode ser automatizado: compreender pessoas, desenvolver lideranças, prevenir problemas e construir relações mais sustentáveis entre trabalhadores e organizações.

É justamente nessa interseção entre tecnologia e humanização que se encontra um dos principais desafios apresentados pelo evento.

O cuidado como estratégia de negócio

Os diferentes anúncios e discussões que marcaram o CONARH 2026 apontam para uma mesma transformação. O cuidado com as pessoas está deixando de ser tratado como uma agenda paralela à estratégia empresarial.

A proteção financeira apresentada pela BIZ, o desenvolvimento de lideranças identificado como prioridade pela pesquisa Conexa e Zenklub, os debates sobre saúde mental e telemedicina da SulAmérica e da Docway e a evolução dos benefícios e das ferramentas digitais como as da Nexti mostram que as fronteiras entre gestão, saúde, tecnologia e bem-estar estão cada vez mais estreitas.

O desafio do RH, portanto, não parece ser escolher entre pessoas e resultados, mas justamente construir modelos de gestão capazes de compreender que uma dimensão depende da outra.


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