Autocuidado não pode virar performance
Vivemos um tempo em que cuidar da saúde parece ter se tornado mais uma meta a cumprir. Academia, dieta, suplementação, produtividade, longevidade. A lógica é quase a mesma do trabalho: fazer mais, melhorar mais, render mais. Mas o que acontece quando o autocuidado passa a funcionar como mais uma cobrança?
Autocuidado sem lógica produtivista
https://www.youtube.com/@JGTV-podcastA provocação esteve presente em uma conversa profunda sobre saúde integral, mudança de comportamento e os riscos de transformar o bem-estar em performance, com a bióloga e health coach Carolina Tuma na JG TV. Para ela, o movimento contemporâneo de busca por saúde carrega uma contradição perigosa. “Se a busca por bem-estar gera estresse, ela vira um tiro no pé”, afirma.
Além disso, Carolina observa que o discurso do autocuidado muitas vezes é absorvido pela mesma lógica produtivista que pretende combater. Ou seja, aquilo que deveria gerar equilíbrio acaba se transformando em mais uma meta a cumprir.
Esse ponto é central quando o assunto é coaching. Em um cenário em que o termo foi banalizado por promessas fáceis e fórmulas rápidas, Carolina faz questão de diferenciar prática séria de discurso vazio. Um coach de saúde, explica, não prescreve, não impõe, não substitui médico ou terapeuta. Ao contrário, atua como facilitador de mudança de comportamento, sustentado por escuta empática, comunicação qualificada e ferramentas baseadas em evidências.
Se surgem questões de saúde mental que exigem outro tipo de cuidado, o encaminhamento é parte do processo. Portanto, não se trata de substituir profissionais da saúde, mas de complementar o cuidado. “Não se trata de dizer o que a pessoa deve fazer, mas de ajudá-la a descobrir o que é possível fazer agora.”
E é justamente nesse “agora” que mora uma das maiores dificuldades contemporâneas. Afinal, a sociedade normalizou o cansaço. Dormir pouco virou prova de dedicação. Pular refeições é sinal de produtividade. Responder mensagens fora do horário é comprometimento.
Cultura da produtividade e normalização do esgotamento
Com o passar dos anos, a fronteira entre esforço saudável e esgotamento foi ficando cada vez mais turva. Para Carolina, o burnout é muitas vezes o resultado dessa desconexão progressiva. A pessoa entra em piloto automático, ignora sinais do corpo, relativiza sintomas e segue acumulando desgaste. Quando percebe, já está exausta física e emocionalmente.
Embora o burnout seja formalmente associado ao trabalho, ele raramente nasce isolado. Pelo contrário, surge no contexto de uma vida desequilibrada, em que sono, relações, alimentação e gestão de estresse já estavam comprometidos. “Biologicamente, não fecha”, diz. O corpo responde. A mente responde. E, sem intervenção, o curto-circuito acontece.
Antes de se dedicar ao coaching de saúde, Carolina passou mais de uma década na pesquisa científica, inclusive em Nova York, desenvolvendo drogas para câncer. A virada profissional veio quando percebeu que, embora o trabalho fosse tecnicamente sofisticado, seu impacto era restrito. Em paralelo, vivia uma transformação pessoal que a levou a questionar o modelo centrado apenas na doença e no tratamento.
Em 2014, decidiu se aprofundar em saúde integrativa e coaching, unindo ciência e comportamento. Assim, construiu uma abordagem que integra evidência científica e escuta qualificada. A biologia, garante, nunca saiu de cena. “A bióloga em mim busca evidência científica, marcador biológico, resposta fisiológica. Eu não trabalho com mágica.”
Saúde mental nas empresas e o risco do “bem-estar obrigatório”
No ambiente corporativo, a discussão ganha outra camada. Nunca se falou tanto em saúde mental nas empresas. Programas de bem-estar, benefícios, psicólogos à disposição, convênios com academias. Ainda assim, os índices de esgotamento continuam altos.
Para Carolina, a incoerência é evidente quando o discurso não se traduz em cultura. Não adianta incentivar atividade física se a sobrecarga é crônica. Não adianta falar em equilíbrio se a liderança não pratica escuta. Segurança psicológica não se constrói com cartazes, mas com relações consistentes no dia a dia.
O risco, segundo ela, é o chamado “bem-estar obrigatório”. Quando o cuidado deixa de ser escolha e vira exigência implícita, surge um novo tipo de pressão: a de ser saudável o tempo todo. Comer certo, dormir perfeito, treinar sempre, meditar diariamente. Nesse cenário, a saúde passa a ser mais uma métrica. E, consequentemente, qualquer falha vira culpa.
Atalhos para a mudança de hábitos
É nesse ponto que a conversa retorna ao indivíduo. A mudança sustentável, insiste Carolina, não começa com grandes metas, mas com pequenos movimentos consistentes. O cérebro tende a resistir a transformações radicais porque elas exigem alto gasto de energia. Por isso, o caminho mais eficaz é o possível.
Ajustes graduais geram autoconfiança. Repetições criam novas rotas neurais. E, dessa forma, a sensação de “eu consegui” abre espaço para o próximo passo. Em vez de ruptura abrupta, a proposta é continuidade consciente.
Ao longo da entrevista, ficou claro que saúde integral não é ausência de doença nem busca obsessiva por longevidade extrema. Trata-se, antes de tudo, de um equilíbrio dinâmico entre diferentes áreas da vida: trabalho, relações, propósito e descanso. Quando uma delas ocupa todo o espaço, o sistema inteiro sente.
Para quem se vê diante de um impasse — sabe que precisa mudar, mas não sabe por onde começar — Carolina propõe algo simples e, ao mesmo tempo, desafiador: reconexão. Pequenas pausas de presença. Um minuto de respiração consciente. A pergunta honesta sobre o que é realmente importante. O reconhecimento de que nem toda meta precisa vir de fora.
Assim, em um mundo que valoriza velocidade, talvez o gesto mais revolucionário seja parar. Perceber. Escutar. Não para performar melhor, mas para viver com mais coerência.
A conversa com Carolina Tuma não oferece fórmulas prontas. Oferece algo mais raro: a lembrança de que saúde não é competição. É construção diária, imperfeita, possível. E profundamente humana.
Coach de saúde inaugura nova temporada da JG TV
A JG TV inicia uma nova temporada de entrevistas, com cenário novo e a inserção dos programas na grade horária da TV Mais, emissora presente 24 horas na Web (www.tvmais.com.br), com aplicativo próprio, e espaço em operadoras de TV por assinatura em cidades dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Nomeado como JG TV +, o podcast irá ao ar com seus programas mais recentes toda quarta-feira, em horário nobre, às 22h30. Além disso, o público poderá acompanhar os episódios sob demanda.
Assista à entrevista na íntegra no canal do You Tube:
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