Pausa ativa para equilibrar a jornada
No episódio da semana da JGTV, a anfitriã Jussara Goyano recebe Clarissa Liguori, co-founder da Pausa Ativa Ocupacional, para uma conversa direta sobre um dos maiores “vilões silenciosos” do trabalho contemporâneo: a combinação de jornadas longas, hiperfoco contínuo e muitas horas na mesma posição — no escritório, em casa ou no híbrido.
Clarissa conta que a ideia do negócio nasce de um contraste que virou alerta na pandemia: a tecnologia acelerou a rotina, mas também empurrou muita gente para o ciclo “cama–sofá–mesa”, com efeitos físicos e mentais que se acumulam sem barulho. “A comodidade ficou muito presente… e a saúde mental começou a pesar”, diz ela, ao explicar por que trocou uma carreira de quase 20 anos no mundo corporativo (na interseção entre comercial e marketing) por um projeto focado em hábitos sustentáveis de bem-estar.
A proposta da Pausa Ativa vai além da antiga ginástica laboral “de cartilha”. O ponto central é simples e poderoso: o corpo não foi feito para passar horas seguidas parado — e o cérebro também não. Clarissa explica que, quando a pessoa permanece muito tempo sentada, tensionada e com atenção fixa, o organismo entra num modo de desgaste: circulação, respiração, visão e humor sofrem; e, com o tempo, isso vira queda de energia, dores, irritação e ruminação mental. “O cérebro só descansa quando a gente tá em movimento”, afirma, defendendo pausas curtas ao longo do dia como ferramenta prática para recuperar clareza, criatividade e autorregulação.
Na conversa, surge um detalhe que todo mundo reconhece: a “falsa produtividade” de quem fica travado na cadeira, sem piscar, sem beber água, “segurando até o banheiro” para “terminar logo”. É aí que Clarissa coloca a pausa ativa como um antídoto do cotidiano — não como performance esportiva, mas como microintervenções consistentes: levantar, respirar, circular, trocar o foco por instantes, aliviar o corpo e voltar melhor. A lógica é trocar o “doping” de café, açúcar e estímulos rápidos por energia mais estável: “Encontra energia no lugar certo… no movimento”.
A solução da Pausa Ativa Ocupacional combina método e tecnologia. Clarissa descreve a implementação em empresas como um programa que começa com diagnóstico (questionários validados), segue com um período de adaptação e comunicação intensa, e então entra na rotina com lembretes e estímulos — os famosos nudges — para quebrar o “uma hora virou duas, duas virou quatro”. O cuidado, ela reforça, é que isso não vire vigilância: “Jamais. Não é produtividade. É o quão bem ele está”, diz, ao explicar que o objetivo é apoiar o profissional e fortalecer autonomia, com sigilo e segurança dos dados.
Mas a entrevista deixa claro que hábito não se sustenta sozinho quando a cultura trabalha contra. Clarissa descreve o principal ponto de atrito: liderança que encara pausa como “corpo mole”, ou que trata saúde como algo “fora do core business”. E ela é objetiva: sem apoio do topo — e sem um ambiente em que levantar dois minutos não vire motivo de ironia — o programa perde força. Por isso, o desenho inclui liderança como aliada: acolhimento, exemplo e conversas semanais com base em indicadores do time. Um gesto simples, ela sugere, pode abrir a porta: “vamos dar uma volta”, “vamos respirar”, “vai fazer uma pausa”.
O episódio também conecta bem-estar à realidade dura do mercado: saúde mental deixou de ser “benefício fofo” e virou risco, reputação e obrigação de gestão. No Brasil, a discussão sobre riscos psicossociais no trabalho vem ganhando mais peso na agenda regulatória e corporativa, e Clarissa aponta isso como parte do novo cenário: empresas que querem atrair e reter talentos — e, ao mesmo tempo, reduzir afastamentos e adoecimento — precisam sair do “evento pontual” e criar consistência.
Ao longo do papo, o que fica é uma tese pragmática: equilíbrio não nasce de grandes promessas, mas de pequenas escolhas repetidas. Pausas curtas, distribuídas ao longo do dia, não “roubam” produtividade — elas protegem energia, corpo e atenção, e ajudam a rotina a caber na vida. E, como Clarissa resume, com a serenidade de quem trabalha com mudança real: “Um problema crônico exige um tratamento crônico”.
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