Empreendedora com TDAH desafia padrões e fatura milhões
Marina Vaz, empreendedora à frente da Scooto, transformou uma trajetória marcada por mudanças profissionais, dificuldades de adaptação ao mercado de trabalho e um diagnóstico tardio de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) em uma oportunidade de negócio.
No comando da empresa especializada em atendimento ao cliente, ela construiu um modelo de trabalho remoto e flexível que coloca as profissionais no centro da operação.
A empresária participou do Programa Aberto da JG TV, (EP 1 – T4) e contou como a neurodivergência influenciou sua carreira, sua forma de liderar e a criação de uma empresa que projeta encerrar o ano com faturamento de R$ 30 milhões.
A Scooto reúne cerca de 1.500 mulheres e opera em mais de 150 operações de atendimento, incluindo projetos para grandes marcas. A proposta combina resultados empresariais, autonomia profissional e inclusão, em um formato que busca ampliar as possibilidades de trabalho para mulheres que não encontram espaço nos modelos tradicionais de emprego.
Empreendedorismo e construção de carreira
A trajetória profissional de Marina foi marcada pela experimentação. Antes de encontrar no empreendedorismo um caminho para desenvolver suas ideias, ela iniciou diferentes cursos superiores, entre eles Medicina, Publicidade e Propaganda, Cinema e Arquitetura, sem concluir uma graduação.
Segundo a empreendedora, a dificuldade de permanecer em caminhos profissionais muito definidos também aparecia em suas experiências corporativas. O tédio frequente, a vontade de mudar processos e a inquietação diante de estruturas rígidas tornavam difícil encontrar um ambiente no qual pudesse trabalhar de acordo com suas características. “Eu sempre me entediei muito rápido”, contou.
A identificação de um problema recorrente nas empresas ajudou a dar forma ao negócio. Marina percebeu que o atendimento ao cliente, embora essencial para os resultados das organizações, muitas vezes era tratado como uma atividade secundária, com pouca autonomia para os profissionais responsáveis pela operação. “Eu sou boa de resolver problemas e um problema que eu conseguia resolver era o de atendimento ao cliente”, explicou.
A partir dessa percepção, a empreendedora desenvolveu uma proposta que procura transformar o atendimento em uma área estratégica. Em vez de priorizar apenas indicadores operacionais, como o tempo médio de atendimento, a Scooto busca estruturar um ambiente no qual as pessoas tenham condições de oferecer um serviço de qualidade.
O impacto do diagnóstico tardio na carreira
Marina recebeu o diagnóstico de TDAH há cerca de dois anos. Até então, havia passado por diferentes profissionais de saúde e recebido outros diagnósticos ao longo da vida, incluindo depressão e bipolaridade, conforme relatou.
A avaliação neuropsicológica trouxe uma nova perspectiva sobre experiências que, durante muito tempo, foram interpretadas por ela como sinais de incapacidade ou fracasso pessoal. “Até então eu era só um fracasso ambulante, sabe? Tudo que eu tentei fazer eu não consegui finalizar”, afirmou.
O diagnóstico não eliminou as dificuldades, mas ajudou a empreendedora a compreender melhor seu funcionamento e a rever a maneira como avaliava a própria trajetória. Entre os desafios que identifica estão a dificuldade de manter a atenção em determinadas tarefas, a alternância entre distração e hiperfoco e a necessidade de lidar com atividades que considera pouco estimulantes.
Marina também relatou que, antes de compreender sua neurodivergência, comparava suas conquistas às de outras pessoas e interpretava as diferenças de percurso como sinal de estagnação. “Eu acho que antes dele, a visão que eu tinha sobre mim, ela ainda era muito julgadora, muito moralista”, disse, ao explicar como o diagnóstico modificou sua relação consigo mesma.
Para ela, reconhecer essas características permitiu direcionar melhor a energia para atividades nas quais consegue contribuir de forma mais efetiva. A mudança também repercutiu em sua atuação como líder e empreendedora. “Eu acho que o diagnóstico me permitiu ser mais carinhosa comigo mesma”, afirmou.
Neurodiversidade no trabalho exige ambientes mais flexíveis
A experiência de Marina também levanta uma questão para as empresas. Até que ponto os modelos tradicionais de trabalho conseguem acolher diferentes formas de organização, atenção e produtividade?
Na avaliação da empreendedora, muitas organizações ainda estruturam suas rotinas com base em padrões rígidos de comportamento, presença e execução. Esse modelo pode dificultar a adaptação de profissionais que não funcionam bem dentro de expectativas uniformes.
Na Scooto, a flexibilidade é parte da proposta de trabalho. A empresa atua remotamente, reúne mulheres de diferentes localidades e permite que elas organizem suas atividades de acordo com suas necessidades, desde que atendam aos resultados esperados. “Porque na verdade a gente não tem que controlar, as empresas infantilizam muito a relação de trabalho como um todo. A gente não quer controlar como as pessoas trabalham. O que as empresas querem é resultado”, declarou.
A empreendedora resume essa lógica a partir da autonomia. Cada profissional pode encontrar a maneira de trabalhar que favoreça seu desempenho. O uniforme, por exemplo, pode ser um roupão, e a rotina não precisa reproduzir os padrões de um escritório convencional.
A flexibilidade também tem uma dimensão social. Segundo Marina, a empresa oferece oportunidades a mulheres que encontram dificuldades para se manter no mercado de trabalho tradicional, inclusive por responsabilidades familiares ou pela falta de compatibilidade com modelos convencionais de jornada.
Ao criar um ambiente no qual ela própria pudesse trabalhar, Marina percebeu que outras mulheres compartilhavam necessidades semelhantes. A iniciativa, assim, passou a reunir profissionais que buscavam conciliar trabalho, vida pessoal e autonomia sem abrir mão da qualidade das entregas.
Autonomia e responsabilidade
Embora defenda ambientes flexíveis, Marina reconhece que a autonomia exige clareza sobre as responsabilidades e os resultados esperados. Na gestão de uma operação em crescimento, um dos desafios é equilibrar empatia, confiança e cobrança.
A empreendedora relata que sua facilidade para compreender as dificuldades alheias pode, em algumas situações, levá-la a tolerar entregas inadequadas por mais tempo do que deveria. Por isso, procura estabelecer expectativas e construir relações de confiança desde o início da colaboração profissional. “Eu não tenho a ilusão de que eu controlo”, afirmou, ao explicar sua abordagem de liderança.
Isso não significa, porém, ausência de critérios. Marina reconhece que a confiança pode ser prejudicada quando os acordos deixam de ser cumpridos e que a gestão precisa manter um diálogo claro sobre as entregas.
A própria relação com a gestão mudou à medida que a empresa cresceu. A fase inicial do empreendedorismo, marcada por experimentação, criação e testes de modelos de negócio, dá lugar a atividades mais estruturadas, como gestão de pessoas, processos e conformidade.
Nesse contexto, delegar torna-se fundamental. Marina admite que, mesmo quando transfere uma responsabilidade, pode acabar retomando a tarefa ao perceber algum problema. Identificar esse comportamento é parte do esforço para direcionar sua atenção às atividades em que pode contribuir mais.
Reconhecimento das próprias características
Ao falar com pessoas que enfrentam dificuldades de adaptação profissional ou que estão começando a compreender sua neurodivergência, Marina defendeu uma relação menos punitiva consigo mesmas.
A empreendedora não apresenta sua trajetória como uma fórmula universal de sucesso, mas como um exemplo de que existem diferentes caminhos para desenvolver uma carreira. Em vez de tentar se encaixar a qualquer custo em estruturas que não funcionam, ela propõe reconhecer as próprias necessidades e buscar condições mais adequadas para trabalhar. “Tenta talvez ser mais carinhosa com você, porque você não vai caber em nenhuma caixinha, não vai”, aconselhou. E acrescentou: “Não se apequene para caber. E se ouça e seja mais carinhosa com você”.
A mensagem se relaciona a um tema cada vez mais relevante para o desenvolvimento profissional, de que compreender as próprias características pode ajudar na escolha de ambientes, funções e estratégias de trabalho. No caso de Marina, o empreendedorismo permitiu transformar uma dificuldade de adaptação em uma proposta de negócio que reúne autonomia, inclusão e resultados.
Sua trajetória também reforça que flexibilidade não significa ausência de compromisso. Para construir ambientes profissionais mais inclusivos, é necessário conciliar diferentes formas de trabalhar com objetivos claros, relações de confiança e responsabilidade pelas entregas.
Assista!
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