Empreender sem destruir: lucro, impacto socioambiental e sobrevivência dos negócios passaram a andar juntos

A ideia de que empresas poderiam crescer indefinidamente sem responder pelos efeitos sociais e ambientais de suas decisões está em colapso. Não por militância, mas por realidade. Crise climática, desigualdade social e pressão do consumidor transformaram o empreendedorismo sustentável de “diferencial” em condição de permanência.

É a partir desse ponto que se desenvolve a conversa conduzida por Jussara Goyano com Aparecida Queiroz e Vanda Souza, no podcast JG TV. Mais do que defender boas práticas, as entrevistadas questionam o modelo econômico que normalizou o desperdício, a exclusão e a lógica do descarte — inclusive de pessoas.

“Não existe mais negócio que possa dizer que não tem nada a ver com isso”, afirma Aparecida. “Quando a empresa cresce, ela impacta. A pergunta não é se impacta, mas como.”

Quando sustentabilidade deixa de ser discurso

Ao longo da entrevista, um ponto se repete: sustentabilidade não pode ser tratada como adereço narrativo. Reciclar resíduos ou apoiar ações sociais pontuais não transforma, por si só, um negócio em sustentável. “Isso são práticas sustentáveis. Sustentabilidade de verdade é quando o impacto faz parte da estrutura do negócio”, explica Vanda.

A crítica ao greenwashing aparece de forma direta. Para as entrevistadas, empresas que comunicam responsabilidade sem alterar processos correm o risco de perder credibilidade — justamente em um momento em que o consumidor se mostra mais atento.

“Hoje as pessoas perguntam: quem produziu isso? Em que condições? Para onde vai depois?”, observa Vanda. “Não é mais só sobre preço ou estética.”

Crise ambiental, crise social — e a falsa neutralidade

A conversa avança para um ponto mais incômodo: a ideia de neutralidade empresarial diante das crises contemporâneas. Eventos climáticos extremos, escassez de recursos e desigualdade crescente afetam cadeias produtivas, consumo e estabilidade econômica.

Para Aparecida, insistir em separar negócios desses temas é um erro estratégico e ético. “A gente fala muito de segurança pública, mas esquece que trabalho e renda também são segurança”, afirma. “Quando você gera oportunidade, você interfere diretamente nesse cenário.”

Essa leitura conecta sustentabilidade ambiental a inclusão social — dois eixos que, segundo as entrevistadas, não podem mais ser tratados isoladamente.

Refoliar: quando o lixo vira pergunta

O projeto Refoliar nasce de um incômodo cotidiano. Durante o carnaval, ao observar o descarte massivo de abadás usados por poucos dias, Aparecida e Vanda se deparam com uma pergunta simples e perturbadora: para onde vai tudo isso?

A investigação levou a um dado conhecido no setor, mas pouco assimilado pelo público: o têxtil é hoje o segundo maior poluidor do mundo. A partir daí, o lixo deixou de ser apenas resíduo e passou a ser matéria-prima — e provocação.

“Não fazia sentido olhar para aquilo e seguir como se fosse normal”, conta Aparecida. “Aquilo tudo tem história, trabalho, recurso natural.”

O Refoliar passa então a atuar na coleta e reaproveitamento de resíduos têxteis — abadás, lonas, banners, uniformes — estruturando um modelo baseado nos três pilares do ESG: ambiental, social e econômico.

Costura, dignidade e valor do trabalho

Um dos aspectos mais sensíveis do projeto é a capacitação de costureiras em comunidades periféricas. A costura, apesar de exigir técnica e criatividade, carrega um histórico de desvalorização e informalidade.

“A maior dificuldade não é ensinar a costurar. É ensinar a pessoa a reconhecer o valor do próprio trabalho”, afirma Vanda.

As formações incluem desde técnicas de upcycling até precificação, controle de qualidade e leitura de impacto ambiental. O foco é o comércio justo — pagar corretamente quem produz e construir autonomia econômica.

“Quando alguém entende que aquilo que faz tem valor, tudo muda”, diz Aparecida. “A postura, o cuidado, a relação com o trabalho.”

Quatro toneladas que não viraram lixo

Na primeira grande ação do Refoliar, durante o carnaval de Salvador em 2025, o projeto coletou mais de quatro toneladas de resíduos têxteis. O material, que seria descartado, foi transformado em peças exclusivas, com geração de renda e circulação econômica.

O dado chama a atenção não apenas pelo volume, mas pelo contexto: a ação foi viabilizada com apoio da iniciativa privada e da sociedade civil, sem parcerias governamentais diretas naquele momento.

“Isso mostra que existe engajamento quando o propósito é claro”, avalia Vanda.

Sustentabilidade não é custo — é estratégia

Na parte final da entrevista, a conversa se dirige diretamente a empreendedores que ainda veem sustentabilidade como gasto. A resposta das entrevistadas é objetiva: sustentabilidade é investimento.

Empresas diversas, responsáveis e alinhadas a valores socioambientais tendem a construir marcas mais sólidas, reter talentos e estabelecer relações mais duradouras com consumidores.

“Ninguém segura esse movimento”, afirma Aparecida. “Pode até tentar atrasar, mas não volta.”

O que fica

O Refoliar não se apresenta como solução total para o passivo têxtil brasileiro — algo inviável diante da escala do problema. Mas se coloca como parte de uma rede de iniciativas que demonstram que outro modelo é possível.

Empreender, nesse contexto, deixa de ser apenas gerar lucro. Passa a ser escolher que tipo de impacto se quer deixar. E, como a entrevista deixa claro, essa escolha já não é mais opcional.


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